11 de janeiro de 2004

LITERATURA ESCOLAR
Ao ajudar a prole no tpc de português, encalho num texto da Luisa Dacosta. Coisa misteriosa, cheia de imagens e metáforas tão obscuras que tive de apelar à licenciatura em letras para descodificar. Graça e interesse não tinha nenhuns, mas ele lá estava, no que deveria ser um momento de "prazer de leitura e descoberta". Ponho-me na pele dos miúdos, mesmo dos que têm a sorte de serem sensibilizados em casa para os livros e dá-me vontade de fugir. É espantoso o entendimento que os organizadores de livros escolares têm de "Literatura Infantil". Julgo que será qualquer coisa como "objecto obscuro, porém poético, em que a presença de nuvens, crianças ou bichos inteligentes é obrigatória". Ou seja, não percebem um boi do que é um bom livro infantil. No que não estão sozinhos. Nunca vi um país em que se alimentasse as crianças com tanto lixo poético como este. Falam das "margaridas"? Deveriam ver quantas "margaridas" não foçam no meia de ilustrações frequentemente boas...
ps: Cito o texto dessa autora, mas muitos outros o acompanham. Ou não fosse verdadeiro o ditado sobre o medo da solidão das desgraças...
SMOKE NOT SMOKE

Aborrece-me dizer isto aos meus amigos que fumam como chaminés, mas um dia destes mesmo no portuguesinho burgo teremos de mudar de comportamento. Não é possível continuar a almoçar em lugares públicos rodeado de famílias, crianças, comida e o fumo de dezenas de cigarros vizinhos. Não é possível continuar a ver passar em carros fechados pais de cigarro na boca, os filhos amarrados (quando estão) no banco de trás e depois ouvi-los protestar contra os perigos da sociedade moderna. Um dia teremos de enfrentar esta coisa tão simples que consiste no facto de uma minoria (30% da população portuguesa, segundo as últimas estatísticas - sendo a maioria mulheres jovens entre os 15 e os 35) forçar a maioria a partilhar da sua depedência. Lamento, mas mesmos os políticos que sabem exactamente o lucro que dão os impostos sobre o tabaco, e o prazer/remédio-anti-stress do mesmo, terão de meter a mão na consciência.
Não se trata de discutir a Coisa. A Coisa é o que é. Houve um tempo para fumar em toda a parte que acabou. Ponto.

8 de janeiro de 2004

CRÓNICA DOS DIAS QUE PASSAM
Bastaria olhar para um dos nossos dias para compreender o sentido da vida. As horas boas, as más. A alegria simples e a tristeza inesperada. O contentamento da descoberta e a frustração da perda. A irritação contra as pequenas coisas e a piedade universal pelas coisas do mundo.
Se isto não fala connosco então é porque andamos com os olhos colados às biqueiras dos sapatos.

7 de janeiro de 2004

LISBOA COM NUVENS
Hoje andava quase tudo maldisposto na cidade. Nos restaurantes os criados atiravam com as ementas para cima das mesas, nas lojas as velhas donas berravam que não queriam os .60 ct (de facilitação de trocos) para nada, e na paragem dos autocarros os utentes davam razão ao desconsolado sindicalista que ontem se queixava que "os passageiros estão a sofrer uma campanha de desinformação sobre a greve", daí andarem chateados como o facto de quase todos os dias haver uma.
Deve ser do tempo. Espero que no resto do país e do mundo (gentil aceno aos leitores ultramarinos e intercontinentais) as coisas tenham sido mais agradáveis.
ps: Irra! (desabafo, um pouco tardio, nem por isso menos sincero).
BOMBEIRADAS
Já tenho falado sobre o Centro Em Movimento. CEM, para os amigos, que são muitos. Já escrevi sobre este centro, em vários sítios. Para os que moram mais longe, ou têm andado distraídos nos últimos anos, informo que é uma Escola ao Contrário. Isto é, não se vai lá contrariado empinar coisas que não queremos. Vamos lá aprender (ou ensinar) o que nos apetece. E quase não se cobra por isso. E assim tem sido.
No 4º andar do prédio dos Bombeiros da Praça da Alegria, todo o dia e parte da noite, uma multidão que se reveza, dança, escreve, faz teatro. Em condições pobres como um circo. E ainda assim teima. E ainda assim todos os cursos estão cheios. Alguma razão haverá.
Ultimamente a bombeirada, que alugava a salinha de caca por uma fortuna (que imagino servirá para estourar nos eternos carapaus fritos com que empestam o prédio toda a semana, ou para comprarem mais cadeiras onde sentam os cus suficentemente ociosos, mudou de ideias. Querem a salinha de volta. Precisam de mais um espacito. Sabe Deus para quê e quanto custará ao erário público esse acréscimo de dolce fare niente...
E mais não digo, ou passará a ideia que eu acho as corporações de bombeiros portuguesas como grupos que se encontram em tascas decoradas a vermelho e com machadinhas, onde eles fogem à tagarelice das esposas. O que não é 100% verdade. No máximo, uns 90%.
Adiante. O que interessa é que a escola anda à procura de um novo espaço. Como as instituições públicas se estão a cagar para pessoas que manifestamente desprezam o lucro ou o pedinchar servil, lanço o apelo. Se souberem de algum espaço em Lisboa que possa receber este grupo de gente valorosa, não guardem segredo. Eles estão aqui. E nós estamos com eles.

5 de janeiro de 2004

CASTELO RODRIGO
Já o disse várias vezes: Portugal só poderá crescer de dentro para fora. D. Sebastião nunca mais vai voltar, por isso já era tempo de crescermos e começarmos a fazer em vez de lamentar.
Das Beiras, mais precisamente de Castelo Rodrigo, chega-me o convite e a notícia de um projecto ficcional. Algo que se pretende alargado e ao mesmo tempo sem soltar os pés do solo que lhe deu começo. Um abraço e votos de felicidades para os promotores do Cantinho. Sabendo que um canto é por definição, o Universo às avessas ;)
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O meu signo para 2004 jura que não vou ter uma vida facilitada. Aponta para um ano de muito trabalho e pouco rendimento.
Raios me partam, se não é a Ferreira Leite que anda a escrever para os jornais sob o pseudónimo "Luna"!
DIZER BEM E MAL

Somos um país tão pequenino, tão pequenino, que nos assemelhamos muitas vezes a concorrentes do BB: 4 paredes, 10 milhões de moradores e milhares de câmaras. Daí que haja esta tendência para dizer primeiro as coisas que nos irritam nos outros. E só depois, eventualmente, enumerar as qualidades e confessar que temos muitas saudades sempre que "saímos da casa" (ou, como diria o Nando, vencedor de Corroios, "É assim, prontoz!").
Foi por isso que não mencionei antes o filme de Jim Sheridan, "In America". O trailer prometia uma obra brilhante e intimista. Quase que conseguia o segundo objectivo. Não fosse a objectiva ter-se deslumbrado com os postais de NY ou o guião pedir ao actor principal (Paddy Considine) que representasse algumas cenas para as quais - obviamente - não tinha arcaboiço e teria sido diferente. Ainda assim, arranca bem e tem algumas cenas com interesse.

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ps: Por falar em arrancar, amanhã começa a "2" (estou ansioso pela novidade das entrevistas da Margarida M. de Melo...). Referi aqui que o magazine se chamaria "Index". Foi este o nome divulgado até há pouco tempo. Mas parece que se chamará... "Magazine". Seja lá o que for... Que venha melhor que o antecessor, é o que se pede. Ponto.

3 de janeiro de 2004

E POR FALAR NO NOSSO SEMANÁRIO...
Uma das minhas páginas favoritas do suplemento "Actual" é a crónica de Pedro D'Anunciação. Há qualquer coisa que me vicia nesta proposta de comentário televisivo. Hesito entre as garbosas suíças e o apostrophe do "D' "...
Na sua prosa queirosiano-prosaica, deambula esta semana entre o tema "Sociedade Civil" (onde fala do "Dois") e a questão do Aborto. De salientar o momento de elogio ao programa da NTV (onde se prova que sou eu que tenho a televisão avariada, já que - ligue para lá a que horas ligar - levo com os inteligentes e nada arrogantes meninos do XPTO...) "Livro Aberto" da autoria de JOSÉ MANUEL Viegas.
Numa página chamada "zapping", percebe-se. Mudar de canais constantemente só nos pode deixar confusos...
BACK ON BUSINESS
Mudar os números para a agenda nova.
Apontar os 1600 assuntos para resolver nos próximos meses.
Tomar café com os amigos.
Sanar mal-entendidos.
Passar em revista as decisões para 2004.
Comprar o Expresso...
Ver que está tudo na mesma!|

31 de dezembro de 2003

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2003
Foi o ano de todos os sustos. O que todos sabíamos e ninguém falava começou a vir ao de cima. Mexeu-se no lodo e começámos todos a dar às pernas, aflitos, nas água da terra-mãe. Falar dói mais do que calar. Mudar dói mais do que ficar quieto (ou assim parece).
Muitos de nós sentimos a necessidade de controlo que se apoderou dos portugueses: é preciso controlar o défice, as baixas fraudulentas, a fuga aos impostos, o desafio à lei. Ou simplesmente à forma menos ortodoxa de trabalhar, no caso dos empregadores mais stressados...
Foi o ano em que foi necessário partir. As coisas instaladas. A Função Pública, ou pelo menos os sectores mais instalados dela, não voltará/ão a ser o reduto de malandros improdutivos que era pelo menos há quase 30 anos. Nunca mais (ou pelo menos nos tempos mais próximos) se poderá dizer: "entrei para o quadro já não preciso de trabalhar". Ou pelo menos assim o julga o piedoso Bagão Félix (ou nós julgamos que ele julga, que no que toca a pessoas com as costas quentes, seja da Igreja Católica, seja de outro lóbi qualquer, nunca se sabe onde acaba a verdade e começa a conveniência).
Este foi o ano do boom e morte de muitos blogues. O Prazer_Inculto nasceu a 1 de Março, e ainda por cá anda (pelo menos por mais uns tempos). Como podem ver pelo canto superior esquerdo, recebeu até hoje, mais de 30.000 visitas. Não é muito, comparado com os blogues obscenos ou com os políticos. Mas esse nunca foi o objectivo. Quem vier por bem continuará a ser bem-vindo. E aos mais fiéis, envio o abraço de alguém que se tem sentido contente por poder partilhar por um meio muito diferente dos livros as suas ideias e delas ter recebido feedback e novos contributos.
Pessoalmente não tenho grandes expectativas para o ano que se avizinha. Talvez seja de hoje estar um dia de chuva e de ter lido os jornais. Gostaria de ver o país animar-se, usar a sua imaginação para sair do estado depressivo em que caiu (e foi empurrado, igualmente).
Gostava que 2004 fosse o ano em a RTP deixasse de ser pimba, o Bigbrother fosse esquecido e a Sic Radical voltasse a transmitir OS MARRETAS (de todos, este parece ser o pedido mais provável...).
No fundo, o que eu queria mesmo era que Portugal olhasse para si próprio e distinguisse o que vale a pena do que não passa de lixo. Mas isso não é um trabalho para um ano, imagino. Talvez para um século.
Bom Ano e espero que cada um de nós consiga chegar ao fim sentindo que se tornou uma melhor pessoa.
Até 2004

28 de dezembro de 2003

E-MAILS
Na minha caixa de correio, dois e-mails de alunos meus. Separados por12 anos de distância. Os dois a lembrarem com alegria os dias que partilhámos entre aprendizagens. E deste lado, o mesmo sentimento contente.
Uma amiga minha, já desaparecida, afirmava que "no fim do ano, o professor fica sempre com as mãos vazias". Tinha razão, os professores sucedem-se e muitos são esquecidos e esquecem as muitas caras com que se cruzam. Mas às vezes, algumas vezes, somos confrontados com a memória de termos tocado o coração ou a inteligência de alguém. E nesse instante, as nossas mãos - abertas - enchem-se de novo.
:)

27 de dezembro de 2003

GOING HOME
Amanhã tenho de me meter à estrada para regressar a Lisboa... A ver se não me esqueço de terminar o testamento esta noite...
BREAKING NEWS
A Tvi e o seu mais do que esforçado telejornal descobriram uma prisão portuguesa que tem uma Ala Livre de Drogas. Pudemos ver como rapaziada jovem e já sem carros para assaltar se entretinha a cantar e fazer tapetes. Isto dá-nos duas esperanças: a) existem espaços prisionais onde trabalham guardas que não se preocupam a arredondar os finais de mês. b) Novos talentos da indústria têxtil e do Mundo da Canção poderão surgir em breve (2 ou 3 anos, com bom comportamento ou se o Papa não bater as botas e lhe apetecer vir rezar à nossa senhora de fátima...).
Nem tudo está perdido.

26 de dezembro de 2003

O SOM DA BARRIGA A GEMER
Muitos portugueses estão neste momento com medo de ficar a sós com os seus estômagos e intestinos. Receiam ouvir-lhes os gemidos e os apelos ao fim da ingestão disparatada de doces e carnuças... ;)
INDULTO
Contrariando a última moda portuguesa de colocar tudo quanto mexe na cadeia, o Presidente da República resolveu diminuir a pena da enfermeira condenada pela prática de aborto em diversas mulheres. Todas tinham ido até ela pelo seu pé, carregando o peso da sua decisão. Ainda assim, o juiz resolveu a coisa com mão pesada. Enfim, quem dorme na sua cama é ele e, como se sabe, em Portugal, o que o Juiz Decide está decidido. Sic.
A Juventude (????) Popular já veio manifestar o seu repúdio pelo acto presidencial. Em comunicado terá referido a medida como inoportuna, numa altura em que "se reuniu um amplo consenso quanto à necessidade de combater de forma exemplar o flagelo do aborto clandestino". As companhias de aviação com ligações a Londres e Madrid já vieram apoiar esta medida, temendo perder metade da classe executiva para esses destinos operatórios.

24 de dezembro de 2003

NOTÍCIAS URGENTES ENTRE RABANADAS
Fui acordado pela notícia urgente na Antena Um. Em directo do Iraque, no noticiário entrevistava-se um responsável da GNR sobre o horror da não-chegada do bacalhau. Com ar heróico, o graduado respondia que os militares em serviço no Iraque "estavam preparados para enfrentar as adversidades (...) que esta ERA GRAVE, mas que iriam suportar com espírito de missão".
A RTP, também desenvolveu o assunto e ainda nos informou que o BOLO REI também não chegaria aos palatos republicanos.
Perante esta crise, pergunto eu: o que fez o Ministro da Defesa para aligeirar o temível fardo (de bacalhau) a quem se sacrifica assim pela pátria? Responde ele: "Fizemos umas k7 de vídeo com mensagens das famílias. Uma espécie de "Adeus e Até Ao Meu Regresso- REDUX".
Alguém anda a passar muito tempo com ex-combatentes...

23 de dezembro de 2003

FIREPLACE
Os lugares de fogo são frequentemente solitários. Como aqueles que se habitam quando a família parte para dormir e ouvimos as chamas da lareira crepitarem. Nesses instantes somos carregados em braços vermelhos até um tempo primitivo em que só existia o Homem e o seu periclitante destino. Ficamos sozinhos com a evidência das coisas naturais. E é dessa postura desarmante que compreendemos a força combativa que transportamos.
AINDA O TEMPO

O Tiago enviou-me este link sobre a passagem do tempo. Justifica o clique.

22 de dezembro de 2003

ANTES QUE ME ESQUEÇA...

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...Feliz Natal! ;)
MANOBRAS DE DIVERSÃO
As Produções Fictícias apresentam no S. Luis os melhores momentos dos espectáculos "Manobras".
Durante hora e meia rimos com o humor inteligente e o trabalho do encenador (Marco Horácio) e dos actores que temos visto crescer (no caso do Bruno Nogueira, de forma imparável...), diante dos nossos olhos. Os textos reflectem a actualidade portuguesa de uma forma frequentemente certeira e sempre muito divertida. Excelentes momentos como o pastiche ao programa da Ana Sousa Dias (em que os dois actores são brilhantes), os padres cantores ou a rábula da Revista à Portuguesa, justificam a deslocação urgente ao S. Luís. Querendo ou não, aquilo que o Parque Mayer foi, na memória de muitos, em termos de divertimento e crítica, aconteceu ali.
Destaque para as luzes e para o grafismo geral da peça.
Desviem-se os que gostam de sair de uma sala em sofrimento... É que ali até bolas de papel para atirar aos actores se recebe.... ;)

20 de dezembro de 2003

SÁBADO
Corro, montado na burra do Tem-que-ser. No Alforge, os compromissos inadiáveis. Na frente, a região saloia onde criaturas simples comem pão, cebolas e vêem as Tvis.
Atrás de mim, vem um romance, uma história infantil e um filme em que gostaria de pensar....

19 de dezembro de 2003

JÁ É TARDE ESTA NOITE

Vim todo o trajecto, a pé, a pensar que os deuses se divertem a jogar connosco ao Gato e ao Rato sobre um tabuleiro de damas. Julgamos que é xadrez e que nos basta saber que aquilo é uma torre, ali um cavalo e que se movem em diagonal, ou a direito, ou de outra forma qualquer. Cremos ser possível dominar as regras complicadas e vencer. Mas trata-se de um jogo mais simples. E nós temos apenas uma peça para mover.

Esta noite, entre a Estrela e Campo e Ourique cheirava a árvores tropicais. Mesmo se as ruas estavam desertas com vagabundos e polícias como sempre. Havia este aroma. Desconfio que Lisboa foi de viagem até de manhã...

18 de dezembro de 2003

CINEMA NOVO

Estreia amanhã. A materialização do último livro.
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Ouvi dizer que os ortodoxos da Escola de Cinema se iriam acorrentar em frente ao écran. "Não concebemos a emoção aliada ao entendimento do que se vê e ouve", terá dito um docente (que pediu um novo adiamento da reforma). Outro ter-se-á limitado a exclamar: "Ouvimos dizer que há partes em que o público SE RI!!!!". Poderão todos ter começado a gritar: "Morte ao Vasco Santana! Morte ao Vasco Santana!"...
Eu não acredito nesta história, mas enfim...
TEMPUS FUGIT

Enquanto corríamos por ervas daninhas imaginando-as florestas, éramos estes:

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E era por ela que o nosso coração batia...
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Enquanto julgávamos que um dia seríamos ele:

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Resta-nos apenas esta música antiga...

AS DIOPTRIAS DE AFONSO

É impressão minha ou o país está a ficar mais pequeno? Se calhar os portugueses andam com os binóculos ao contrário.
Do tamanho do nosso stressado umbigo, talvez...

16 de dezembro de 2003

MENSAGEM DE NATAL DE SUA EXCELÊNCIA "A gRALHA"

Depois de seleccionar cuidadosamente as pessoas a quem queria enviar uma mensagem de Boas Festas, do meu livro de endereços, teclei-a furiosamente. Para me sair um neologismo interessante "Ortiga". Depreendi que os deuses me tinham feito profeta de uma nova planta... (suspiro) Há dias em que a melhor das vontades...

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ORTIGA (urticariaignorantis)
"UMA BRECHA NA MURALHA DA HIPOCRISIA"
... disse, neste tom vindo de outras eras mais combativas, um dirigente partidário, a propósito da despenalização do aborto. Pode ser que tenha razão.
Há dias li a notícia que um grupo de mulheres, auto-intituladas uma coisa que se me varreu, mas que não era "Mães de Bragança", veio a público sugerir que se "recuasse ainda mais na lei". Argumentavam que quem defendia a despenalização não estava a favor das mulheres. Presumia-se que estavam a favor da libertinagem. Que as putas que tinham engravidado por gozo e falta de cabeça, tinham mais era que aguentar com as consequências. Não se referiam aos casos de violação ou de malformação do feto, mas percebia-se que era para trazer tudo cá para fora. Amado ou não amado. O que interessava era que "estava feito". Enfim, não vou falar sobre isso porque me desperta o lado mais irracional e sou capaz de desatar a ser malcriado e a defender que ir abrir as pernas a Londres por milhares de libras não é diferente de utilizar a mão-de-obra local. Mas dizer isto não seria muito útil.
Digo apenas que das várias mulheres que conheci e que foram forçadas a abortar, todas o fizeram com dor. Física e sobretudo psicológica. Todas carregaram a culpa consigo. Todas prefeririam não ter de o fazer. Mesmo se elas se encontravam em situação economicamente difícil, ou se eram jovens estudantes, ou se o feto que traziam seria filho do homem que as abandonara e que fora a casa para se deitar com elas, antes de partir novamente... Nenhuma o fez por leviandade.
As mulheres no tribunal de Aveiro e os médicos fazem muito bem em não responder. As (poucas) que saírem à rua para gritar a hipocrisia desta lei, também fazem.
Se os arguidos forem condenados que cumpram a pena injusta. Ninguém escolhe o momento histórico em que vive. E este nem sequer é dos mais bárbaros. Dos mais hipócritas, provavelmente.
Mas não nos peçam que nos calemos.

15 de dezembro de 2003

COMPRIMIDOS PARA OS OLHOS DOS PORTUGUESES DESGOSTOSOS

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Tomar uma paisagem portuguesa (sem o som das moto4 dos meninos), após um telejornal.

14 de dezembro de 2003

A CIDADE DAS SETE COLINAS
Como sei que nem toda a minha gente compra o "Expresso", passo a reproduzir este pequeno excerto de uma história que, segundo creio, ali terá sido referida... (Provavelmente, e conhecendo a compência camarária geral, mais do que falsa: falsíssima!)

"Conto, aliás, uma história que ouvi recentemente.
Um cidadão português, que sempre desejou ter uma casa com vista para o
Tejo, descobriu finalmente umas águas-furtadas algures numa das colinas de
Lisboa que cumpria essa condição. No entanto, uma das assoalhadas não tinha
janela.
Falou então com um arquitecto amigo para que ele fizesse o projecto e o
entregasse à câmara de Lisboa, para obter a respectiva autorização para a
obra.
O amigo dissuadiu-o logo: que demoraria bastantes meses ou mesmo anos a
obter uma resposta e que, no final, ela seria negativa. No entanto,
acrescentou, ele resolveria o problema.
Assim, numa sexta-feira ao fim da tarde, uma equipa de pedreiros entrou na
referida casa, abriu a janela, colocou os vidros e pintou a fachada. O
arquitecto tirou então fotos do exterior, onde se via a nova janela e
endereçou um pedido à CML, solicitando que fosse permitido ao proprietário
fechar a dita cuja janela.
Passado alguns meses, a resposta chegou e era avassaladora: invocando um
extenso número de artigos dos mais diversos códigos, os serviços da câmara
davam um rotundo não à pretensão do proprietário de fechar a dita cuja
janela.
E assim, o dono da casa não só ganhou uma janela nova, como ficou com toda
a argumentação jurídica para rebater alguém que, algum dia, se atreva a vir
dizer-lhe que tem de fechar a janela!"
AS INVASÕES BÁRBARAS

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Já não me lembrava do filme anterior, O DECLÍNIO DO IMPÉRIO AMERICANO, por isso lá fui um bocadinho a medo (sinceramente, levado pelo prémio de melhor Argumento em Cannes - um filme que tem um bom argumento, e que ISSO SE PERCEBE, dificilmente será apenas um insuportável barrete...).
E gostei muito.
A figura de Remy, o doente terminal que recusa a família e o conforto para mais tarde aceitar o destino e o amor dos seus, é formidável. Mas o melhor será a forma como estes "Amigos de Alex" olham sarcásticos para o seu passado maoísta e empenhado. Divertidísso (num sentido que os apreciadores de Fernando Rocha nunca sonharão...). Ainda há pouco estava a ver o Fernando Rosas, na tv, a falar sobre o Iraque e me lembrei deles :-)
AGARRA QUE É SADDAM
Perdi o discurso do nosso Primeiro sobre a captura do fugitivo iraquiano. Estava marcada para as 17.00h, mas prudentemente, resolveu ouvir primeiro o que dizia o Pai Bush e tudo o que era líder europeu, antes de arriscar uma opinião.
Portugal está mesmo a mudar. Os nossos governantes estão a ficar verdadeiramente prudentes e reflectidos. Sim senhor...!
EQUADOR
Miguel Sousa Tavares deu uma entrevista exemplar ao "Mil Folhas". Pela primeira vez, desde que me lembro, alguém que escreveu um livro de ficção, não se declarou "escritor". Pelo contrário, afirma que o não é. E lá ficamos todos a discutir se terá razão ou não. O seu testemunho foi tão honesto e fiel como o livro. Sem paciência para as "caganças"que caracterizam o discurso geral, limita-se a dizer que tinha uma história para contar e a contou o melhor que foi capaz. Mais: atreve-se a dizer que "não sabe se o seu livro ajudou a literatura. Mas que ajudou, de certeza, a leitura". E isto é indiscutível.
Duvidosamente, Equador ganhará qualquer prémio literário. Não está na editora certa, e vendeu demasiados exemplares. De resto, com a honestidade de alguém que leu as mais de 500 páginas e gostou, não sei se o mereceria. O ano passado, em Barcelona, Agustina disse uma coisa que chocou muita gente: afirmou que em Portugal se tinha inventado uma nova razão para atribuir prémios literários, a Piedade. Isto é, premeia-se aqueles que ninguém quer ler. Ela tem idade e talento suficientes para a acreditarmos.
Sousa Tavares, quando quiser pode escrever neste blog. A sua postura não poderia estar mais próxima da ironia do Prazer Inculto...

13 de dezembro de 2003

APRENDER É MAÇADA

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S.Tomé' 2003


Numa escola que eu conheço, 5 alunos faltaram a um teste. Porque não lhes apeteceu. O que conduziu a um processo de "Recuperação" (não remunerado ao professor). Desses 5, 3 resolveram faltar à "Recuperação". Não estavam em dia de ser recuperados, suponho. O Estado-Providência já lhes preparou mais uma (não remunerada ao professor). Irão se quiserem. Se não quiserem, ainda têm mais 2 hipóteses.
Não remuneradas à igualdade entre os novos do mundo.
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´ P.C.'2003

Quando o chão familiar encolhe debaixo dos nossos pés, é tempo de aterrar.

12 de dezembro de 2003

PAGA!
Como é do conhecimento geral, faço parte do grupo de sardinhas que se empilham diariamente nos transportes públicos em Lisboa. Por isso, estou à-vontade para falar sobre carros.
Santana Lopes entende, e bem, que há muitos carros no centro de Lisboa, que não é como a Quinta da Marinha nem as outras zonas por onde ele se passeará, onde há sempre espaço para um motorista arrumar o carro.
Daí que tenha resolvido atacar o problema por onde ele dói: o bolso dos automobilistas. No que tem razão, segundo penso. A única lei que os portugueses entendem à primeira (logo a seguir ao murro nos dentes) é ter de pagar por qualquer coisa que tinham de borla.
Agora é a circulação na Baixa de Lisboa que passará a ser paga. Não tenho nada a objectar, desde que rede de transportes públicos seja reforçada e os funcionários da Carris trabalhem pelo menos uns 200 dias por ano.
Já me chateia mais a ideia de que a EMEL , a empresa mais burocrática, antipática e disfuncional da cidade (e porventura uma das mais abonadas, sabe-se lá para onde vai o dinheiro) tenha tomado o freio nos dentes e venha exigir aos moradores QUE PAGUEM ESTACIONAMENTO nas suas áreas de residência. Não lhes chega cobrarem fortunas por toda a cidade, como ainda estão decididos a penalizar os milhares de pessoas que não dispõem de garagem nos seus prédios para arrumar os carros ao fim do dia.
Ainda estou para ver que desculpa é que o amigo Pedro vai arranjar para justificar esta cedência aos lóbis camarário-empresariais...
PARIDADE
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Está a chegar a data da entrega da declaração do Irs. O que vale é que as novas medidas da Ministra tornam a coisa justa para todos...

11 de dezembro de 2003

INDEX
Anabela M. Ribeiro, Filipa Melo e Cláudia Galhós estão na equipa do novo "Acontece". Esta noite registaram a última projecção da Zero, no Cine222.
Aguardamos.

10 de dezembro de 2003

SURPRESAS
A dieta moderada que tenho vindo a fazer de televisão e jornais está-me a fazer bem. Ando muito menos "Informado" :-)

Contudo, há uns dias, ao zapar pela pantalla, descubro que ainda existe o Big Brother, que julgava saudavelmente extinto. E o Herman também ainda repete os seus "soquetes"... Os mesmos da minha adolescência. É maravilhosa a ausência de timing de algumas pessoas.
Por este andar desinformado ainda descubro que o Tal Programa cultural da DOIS já começou...!

9 de dezembro de 2003

CINEMA INDEPENDENTE
Pelo que fui lendo na blogosfera, muitos são os que consideram o artigo do Independente sobre o estado do cinema português como "demagógico".
Eu, que vi alguns dos filmes, pareceu-me ser apenas a apresentação de factos.
O outro foi que estive quase sempre sózinho na sala durante as projecções.
O último foi que percebi completamente as razões de quem lá não estava.
Mas estou com aqueles que que querem tapar o sol com a peneira. Boraí todos fingir que só se fazem filmes maravilhosos e que o público (os 10 milhões) é que é estúpido!
HOJE...

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Sobrevivi à estrada molhada, aos condutores loucos e ao nevoeiro que me bloqueava a visão clara das coisas.
E contudo pensei que tinha muita sorte por ter consciência da efemeridade das coisas.

6 de dezembro de 2003

CALVINO

"Assim, temos de recordar-nos de que se nos impressiona a ideia do mundo constituído de átomos sem peso é porque temos experiência do peso das coisas; tal como não poderíamos admirar a leveza da linguagem se não soubéssemos admirar também a linguagem dotada de peso"

(Italo Calvino, in "Seis propostas para o próximo milénio" - A Leveza)
OLD LIGHT GOES HUNTING
Hoje vi o novo livro da Rita Ferro, sobre cromos. No resultado da maravilhosa parceria que tem estabelecido com o seu novo editor N. Matos, varre os portugueses com as suas desencontradas farpas. Vai dos intelectuais até sabe Deus onde... Sempre com a mesma acidez. Um pouco o que a Ana Bola tinha feito com as tias, mas sem a graça.
Contudo, eu, pessoalmente, fiquei contente. Vi-me lateralmente referido :-) Embora sem grande arrojo, admito... Descobri que ainda há gente empenhada cuspir na nome do meu homónimo Possidónio da Silva (1806-1896). Aparentemente, as tias e as velhas carquejas editoriais ainda se lembram de que há cem anos atrás este nome próprio era sinónimo de ingenuidade.
Se tivessem pensado em mim, com certeza que não teriam deixado de referir que por vezes pode ser sinónimo de honestidade e de lealdade aos valores humanísticos.
Ai espera... Mas isso não ajuda a fazer bestsellers, pois não...?!

4 de dezembro de 2003

GREVES
Estou atrasado para a greve da Carris. Na prática, o tempo que vou esperar por um transporte alternativo é o mesmo que espero por um autocarro regular (que deveria passar de 15 em 15 minutos).
Obrigado aos habitantes de Matosinhos, Angra do Heroísmo, Évora, Braga, Vila Real, Quarteira e todos os outros que com os seus impostos estão a pagar os custos desta iniciativa de defesa dos direitos de trabalhadores (uma forma de dizer) de Lisboa.

E por falar em greves, alguns trabalhadores da Caixa Geral de Depósitos, foram hoje trabalhar "envergando uma peça de roupa preta". Protestam contra a perda de regalias (seria interessante publicar aqui a listagem das regalias de um trabalhador da CGD para se perceber do que estamos a falar).
No Estabelecimento Prisional de Lisboa parece que lhes vão seguir o exemplo por causa da pouca diversidade de canais por cabo. Amanhã muitos irão almoçar envergando uma peça de roupa interior rosa. Ou azul-bebé, conforme...
GOVERNA QUEM SABE
O nosso clown, Alberto João, bateu o pé, para variar, a propósito da eterna dívida da Madeira. Terá certamente ameaçado com o que seria uma benção para todos nós, incluindo os nossos conterrâneos do arquipélago: não se recandidatar. Era mentira, claro, um palhaço morre sempre de forma patética debaixo das luzes da pista. Mas, a contrariada Manuela F. Leite, lá deve ter tido de ceder aos pedidos do - por assim dizer - líder do governo e vá de lhe perdoar tudo, fazer batota com as regras de contenção do endividamento. E ainda lhe arranjou mais uns trocos com que ele irá esfregar na cara do povo local como "tomem lá que EU vos dou mais isto".
Isto só vem provar que não existem em Portugal políticos de confiança. Quando a perda de votos ameaça dão o cu e cinco tostões para não perderem o poleiro.
Ora, ganhem vergonha na cara!

3 de dezembro de 2003

LAVAR MAIS BRANCO QUE O BRANCO
Desconfie-se do homem ou mulher que bata no peito e fale da Inocência como o único valor. A coisa perdida que urge recuperar. Algures na sua vida o lixo já lhe entrou sorrateiro por debaixo da porta fechada...

2 de dezembro de 2003

JUNTAR IDEIAS AFASTAR O LIXO
Regresso de um bocado muito agradável, passado com um Clube de Leitura de Lisboa. Reúnem-se uma vez por mês, para falar de um livro que quase todas as pessoas acabaram de ler, colocam perguntas ao autor convidado e dizem de sua justiça sobre a obra em apreciação e muitas outras coisas. No fim, janta-se e descobrem-se as pessoas.
É simples, é barato e Deus sabe que fica nos antípodas da solidão que a televisão impõe. Se cada uma das pessoas que está a ler este post falasse com outras e organizasse um encontro deste género (à volta de um livro, de um filme ou de outra coisa qualquer) Portugal poderia a ser diferente. :)
"ELVIS" REGINA
Aqui fica um excerto de uma das minhas canções favoritas:
"(...) Já faz tempo eu vi você na rua cabelo ao
Vento gente jovem reunida
Na parede da memória essa lembrança é o que dói mais
Minha dor é perceber que apesar de termos
Feito tudo o que fizemos
Ainda somos os mesmos e vivemos
Como os nossos pais
Nossos ídolos ainda são os mesmos e as
aparências não se enganam, não
Você diz que depois deles não apareceu mais ninguém..."
(in "Como os Nossos Pais", de Belchior)

1 de dezembro de 2003

MUDAM-SE OS TEMPOS...
Enquanto lia uns textos sobre o nosso conturbado século XIX, cheguei à conclusão que muitos historiadores lembram os anos à volta de 1836 como épocas em que "uma minoria composta de ministros, marechais e generais do exército, altos magistrados e chefes de repartições" consumiam a maior parte (frequentemente em "advance"...) dos recursos do Estado. Ao resto da maralha - excluindo a imensa maioria que arrancava da terra as couves e as batatas - restava o mendigar dos magros soldos.
Fico muito contente que 167 anos depois as coisas se tenham alterado RADICALMENTE.

30 de novembro de 2003

MYSTIC RIVER
Era uma sala grande e comovida que assistia à dor vingativa daquele pai. Que se afligia com a figura atacada que corria entre as árvores.
Se o fim não estava particularmente conseguido (talvez por colagem ao livro - que desconheço- e ao fraco desenvolvimento de algumas personagens secundárias), todo o resto foi conduzido com sensibilidade e mestria.
A ver.
"DUELO DE GIGANTES"
Assim referia o DN a troca de cartas entre E.P.Coelho e o Cardeal Patriarca de Lisboa.
Fiquei sem saber qual seria a estatura do patriarca...
AUTORIAS E TRANQUILIDADE S.TOMENSE

:) Ontem, ao ver uma reportagem que me fazia desaparecer misteriosamente da lista de autores do argumento de um filme em rodagem, ia sorrindo. Normalmente ficaria furioso; preocupado com as razões que estariam na origem da informação filtrada. Ontem, não. Pensei na honestidade que tinha dispendido com aquele trabalho, na segurança de ter chegado a um resultado que não me envergonha, que me fez crescer enquanto argumentista (no sentido em que desenvolvi estratégias técnicas para resolver situaçõe complexas) e na seriedade que tento colocar no que faço. E ainda mais me tranquilizei. O ghostwriting tem os dias contados. Tão contados como a antiga inépcia na feitura de filmes. Algumas pessoas é que ainda não deram por isso.
Ir a S. Tomé fez-me mesmo bem :)

28 de novembro de 2003

GENERALIZAR
Uma das maiores dificuldades de emitir uma visão sobre qualquer assunto é que estaremos sempre a "generalizar". Não no sentido de nos armarmos em generais, os donos da verdade, mas no de estarmos a expressar uma opinião sobre um conjunto. Seja ele uma classe profissional, social, etária, ou outra. Daí que haja sempre alguém que se queixe de, pertencendo ao referido conjunto, não se rever na imagem dada. Ou de "conhecer gente" que não se encaixa.
Com o tempo, todos percebemos que se alguém diz "os merceeiros de Vila Pouca andam a roubar a população no preço do café", isso não inclui TODOS os merceeiros. Haverá sempre o senhor José que tem levado uma vida relativamente honesta e que só roubou no preço da farinha; ou que bate na mulher, ou assim, mas que NUNCA ROUBOU NO CAFÉ. A forma politicamente correcta de contornar a coisa é escrever "alguns merceeiros". Ou "alguns bombeiros". Ou "alguns políticos".
Acontece, que estatisticamente somos levados de quando em vez a pronunciarmo-nos sem o "alguns". Por exemplo, quando nos referimos aos taxistas do aeroporto da Portela. Deveríamos dizer "alguns" são uns vermes, e acabamos a dizer "eles" são umas amibas (que, em substância, não passam de vermes brainless). Ou seja, não afirmando que "toda a floresta está doente", subentende-se que a maioria das árvores o estão.
Se eu digo "os caçadores" são uma espécie anacrónica, cujos hábitos têm frequentemente efeitos secundários nefastos (para não falar nos directos), quero mesmo referir-me à "a esmagadora maioria". O que não quer dizer que no meio deles não se encontre gente que procura respeitar o meio-ambiente e que sinta sobretudo um grande prazer em passar dias a percorrer os campos. Gente essencialmente positiva.
Este raciocínio aplica-se a tudo o resto. Os actos não se confudem com quem os pratica.
ENGATE:
"Accção de atrelar animais a veículos, de ligar entre si carruagens, de prender ou segurar com gatos ou engates...." diz o dicionário da Academia.
Daí, eu nunca ter percebido bem a coisa.
Conheço gente que vive no pânico de "ser engatado". Outros de "não conseguirem engatar". E eu que vivo uma vida simples não estava a ver. Ora se uma pessoa não é um animal, como é que pode desaparecer da vista de outro por medo de ser atrelado a um veículo? Eu sei que isto não é uma perspectiva divertida (e quem já viu filmes com malucos em autoestradas percebe bem...) mas, admitamos, não passa de uma hipótese remota.
Já os que são doidos por engatar me causam ainda mais confusão. Mesmo atendendo à diversidade do mundo, que raio de interesse tem em segurar alguma coisa "com gatos". Com gatos? Logo com gatos, que é um bicho que só faz o que lhe dá na real gana...!! Ainda se fosse com cães ou cavalos que são bichos mais mansos, ainda vá. Mas assim...
Não sei. Não percebo...

27 de novembro de 2003

LOBBIES
Anda gente a queixar-se de que há lobbies (lóbis, na grafia portuguesa?"lobos" seria mais adequado...) nos bombeiros, nas escolas, na justiça etc. Que haveria gente colocada antecipadamente em lugares públicos....
Qualquer dia ainda descobrem que nas secretarias várias se abrem concursos com critérios moldados para a pessoa que lá querem meter à força.
DEIXA-OS POUSAR
... É um ditado muito velho. Usa-se para dominar a impaciência perante a descrença dos lentos.
Os nossos intelectuais e políticos, depois de terem escrito amargos e desdenhosos textos a propósito dos blogues, começaram, a um e um ou a quatro e quatro a gatinhar na blogosfera. São sempre recebidos com generosidade; "Entrem", diz-se-lhes, sem rancor. E eles lá vêm, ainda fazendo cara feia, entre o deslumbrado e o rezingão, até que se instalam e sentam a brincar. Já fizeram isto com o computador, depois com o email, em seguida com a navegação não-estruturada. Agora os blogues.
Chegam tarde. São bem-vindos, mas chegam tarde. E terem a humildade de reconhecer que estavam enganados ao considerarem o esforço e a criatividade de centenas (agora milhares) de portugueses como uma brincadeira inócua não vos ficaria mal, ó descobridores da pólvora
;-)

ps: enquanto verificava no meu dicionário que a palavra "benvido" já não era bem-vinda à nossa grafia, descobri ainda " bem-dito: que é objecto de reconhecimento de outrem, pelas qualidades, comportamento... favoráveis". Além de "beiçana", "bengalada" e, o mais interessante "bendeucha", o acto de conquistar alguém, com o intuito de iniciar uma relação amorosa.=ENGATE

26 de novembro de 2003

O FIM?
Nem de propósito. Ainda a respeito da Zero, recebo uma carta a anunciar a suspensão das suas actividades. Depois da ameaça no final do Verão, a concretização.
Em carta desencantada, a direcção lamenta o desinteresse da Câmara de Lisboa e de outras entidades com responsabilidades na área da cultura por este projecto. Pela maneira como subestimaram um trabalho que trouxe de forma sistemática, reflectida e insistente uma amostragem do que de melhor se está a fazer pelo mundo em termos de cinema. Muitos de nós, como eu, são testemunha desse esforço. A vergonha fica com quem deve ficar.
Antes de partirem e além da já referida mostra no Quarteto, a Zero programou para Dezembro, 3 interessantes filmes. Conheço apenas um, ALL ABOUT LILY CHOU CHOU, de Shunji Iwai, que começa com um plano sequência absolutamente maravilhoso. Como diz o prospecto "é um filme que se sente" mais do que se vê. A 4, 5 e 9 de Dezembro. Antes disso, LABERINTO DE PASIONES, de Pedro Almodóvar, passado numa Madrid dos anos 80. E a 10, 11 e 12, chega HUKKLE, de Pálfi Gyorgy, um filme perturbador sobre a vida rural na Hungria.

25 de novembro de 2003

CICLO QUARTETO
Para além das antestreias, o cinema Quarteto, via Zero Em Comportamento, convidou algumas pessoas para escolherem um filme que tenha tido uma carreira discreta e de que tenham gostado particularmente. A ideia consiste em visionar o filme em conjunto e o mentor da selecção trocar ideias sobre a coisa em si com o resto do público.
A escolha deste vosso criado recaiu sobre "Nos meus lábios", de Jacques Audiard.
Os que não tiverem visto ou quiserem rever em conjunto, apareçam na quinta-feira às 21.30 h, neste cinema.
O DINHEIRO É UMA BRISA QUE DESLIZA PARA O BOLSO DA CAMISA
Porreiríssimos, os administradores da companhia que gere as nossas autoestradas. Enviaram-me uma carta em que me dão várias opções. A saber, se quero alugar ou comprar o identificador que JÁ COMPREI. Se não disser nada, descontam-me mais 30 € e fica adquirido (até nova e compulsiva aquisição, claro). Se não gostar desta ideia posso sempre pegar no envelope que eles me oferecem e dizer-lhes que "quero alugar", isto é, que deverão retirar 10 € por ano da minha conta, ad aeternum, pelo aparelho que já tenho.
E vão mais longe, quais Marta Neves, avisam-me que o meu nome, endereço, número de telefone e tudo o que confidencialmente lhes entreguei, será cedido a outra empresa, caso não diga nada em contrário. Isso dar-me-á direito a receber telefonemas recorrentes de empresas de inquéritos.
"Olá, fala Brisa. Era para saber se não quer alterar o seu seguro automóvel..."
Bem-haja a democracia.
FERRO-NOVO
De acordo com o DN de hoje, os comerciantes de Coimbra estarão muito contentes com as greves estudantis. Consta que já venderam mais de 500 euros em correntes e cadeados.
Os donos das sexshops é que estão a ficar lixados: "Se continuam a cravar os pais para gastar o dinheiro em ferragens estes ainda se chateiam e não lhes dão dinheiro para comprar pénis de borrachas ou chicotes. E a alegria das praxes é que sofre...!".

24 de novembro de 2003

O ACTO DE BOBAGEM
Há uns tempos atrás, a brilhante Tia Bobona preconizava a "Hipocrisia Social" como acto de sobrevivência. Na altura insurgi-me contra esta atitude defendendo a sinceridade como valor primeiro.
Contudo, ao pensar em certas pessoas não consigo deixar de ver que há quem tenha como refrão favorito "tell me lies, tell me lies, tell me sweet little lies"...
Não é por amor à hipocrisia. Apenas são incapazes de lidar com a verdade. O que dificulta bastante a vida a quem não sabe comunicar de outra maneira...
CAÇADORES
Não consigo encontrar nada de positivo nestes. E não é tanto por dedicarem os seus domingos e feriados a encherem de chumbo animais bravios ou de cativeiro. Ou pelo facto de milhares de cães serem abandonados (hoje vi diversos) pelas estradas do país, pelo facto de "não terem faro". Ou sequer por milhares de homens encherem a cara com cerveja e vinho antes de se meterem à estrada em magotes, enfiados em jipes (muitos deles comprados com subsídios a fundo perdido pedido para outra coisa qualquer) seguidos daquelas ridículas caixas atreladas com latidos. E também não é pelo facto de todos os anos morrer gente comida pelos chumbos de uma caçadeira deixada demasiado à mão, logo transformada em brinquedo pelas crianças ou em arma de vingança por maridos encornados ou vizinhos coléricos...
Não sei... Embirro... Mesmo se não estou a ver a razão...
SER POSITIVO
Percebi, hoje, o que me leva a assisir regularmente à Operação Triunfo: é que ao contrário da sina nacional, o público dá por si a torcer para que eles consigam; para que corra bem; que os progressos se vejam. E só por isso, vale a pena o investimento público.

21 de novembro de 2003

CHUVA DE GREVISTAS
É sempre maravilhosa a discrepância entre os números apresentados pelos governos (nunca mais de 10%) e pelos sindicatos (entre 80% e 100%)..
A autoestrada esteve toda a tarde entupida. E não foi só por causa da chuva: hordas de funcionários sorridentes protestavam nas estações de serviço contra a demora das bicas e da entrega do troco dos cigarros que os impediam de chegar aos destinos de fim-de-semana antecipado. De facto, era criminoso perturbar aquela alegria.
Bem-hajam os sindicatos que convocaram as faltas ao trabalho para a sexta-feira. Eu sei que foi coincidência, mas mesmo assim...

20 de novembro de 2003

SOBRE CROQUETES
À porta de mais um lançamento, diz o Papa (ajeitando o nó da gravata) para os jovens escritores:
-Sabem, o mais importante é o Silêncio. Não levantar muitas ondas. Repetir o que já foi dito e aprovado. Fingir que se ama a ousadia, sem se pisar o risco. Mas atenção: que pareça original tudo o que emitirem! Fiz-me entender?
- Mééééé!!
- Méé!
E entrando:
- De Ouro. É de Ouro. Já a Palavra, não vale mais do que a Prata...
AINDA A PROPÓSITO DAS ONDAS
Depois de um bocadinho de deslumbramento com a pilha (literalmente) de novos títulos que encheram as prateleiras de livros da Fnac (raios me partam que não consigo deixar este vício da leitura... Não haverá uma marca de pastilhas para colar no braço ou assim que nos afaste desta ânsia de saber mais?) o meu dia entrou em período NÃO. Sabem aquela coisa do mundo que nos cai em cima e que ou começamos a dar à perna e tentar estancar a hemorragia ou as coisas ficam mesmo feias? Foi assim.
Mas enquanto conduzia o carro pelas ruas de Lisboa (alvíssaras, o pedestre foi de carro!) só me lembrava da frase escrita em baixo sobre nós sermos o mar. E sabem que mais? Tudo se compôs, mesmo se ainda estou a tentar explicar ao meu corpo febril esta coisa dos benefícios da metafísica :-)

19 de novembro de 2003

ELEPHANT

vi.
LOBO ANTUNES
... perora e fuma na Sic Notícias enquanto escrevo isto.
Li, com o maior interesse, a entrevista dada ao DN de hoje (que já é ontem). Em muitos aspectos senti-me próximo do seu pensamento. Sobretudo no que toca à produção literária. À necessidade da reescrita constante. Ao olhar distanciado sobre os livros que ficaram para trás. "Já não somos os mesmos que escrevemos aquele romance", afirma. E tem razão.
Reproduzo o que me interessou no seu discurso. O resto podem ler directamente no site do jornal.

"Como lida com os diferentes tempos de um romance?

O tempo é muito curioso. À medida que se envelhece o tempo é mais rápido. Ainda agora foi Natal e já vai ser Natal outra vez. Quando se é novo pensa-se que o tempo vai resolver os problemas e depois a partir dos 40 percebe-se que o tempo é que é o problema. Sou muito consciente de que tenho pouco tempo, de que posso fazer mais dois ou três livros, e depois acabou(...)
As literaturas africanas são visíveis em Portugal?

E a literatura portuguesa é visível? O nível médio daquilo que se publica, seja onde for, é muito baixo. Esta é a verdade em todo o mundo. As pessoas compram aquelas coisas que falam sobre o hoje e quando o hoje se tornar ontem já ninguém vai ler aquilo.

Um livro pode ajudar a repensar o mundo?

Tenho uma certa desconfiança em relação à palavra pensar. Quando se está a escrever, pode-se pensar enquanto indivíduo, mas enquanto escritor... Sempre me fez confusão as pessoas que dizem: tenho um livro na cabeça só me falta escrever.

Isso não lhe acontece quanto parte para as suas folhas?

Parto sem nada.(...)
Qual a missão da crítica?

Idealmente, a missão da crítica seria ajudar a ler. Em teoria, o crítico será um leitor mais atento do que os outros. Não tem necessariamente que emitir juízos de valor. Temos tendência a gostar só dos que são da nossa família, as ideias confundem-se com as nossas paixões. Em Portugal não sei como se passa a crítica.
(...)
Uma relação com uma editora normalmente tem altos e baixos. Digamos que neste momento não estou num alto. Esta é uma época muito complicada porque as editoras atiram cá para fora o máximo de livros que puderem, é uma época em que se vende. Só que há desatenções que já não tolero ou tenho dificuldade em engolir. Não quero que me respeitem a mim, quero que respeitem a honestidade do meu trabalho. E ao mesmo tempo sou extremamente fiel, cria-se uma relação de amizade que para mim é muito importante.
(...)
Acaba de ganhar outro relevante prémio, o da União Latina. O júri fundamenta: «Lobo Antunes é a voz mais expressiva da realidade profunda de Portugal.» Que sente?

Não me interessa ser a voz mais expressiva de Portugal. É preciso dessacralizar os prémios. É evidente que são agradáveis. Os prémios, porém, não têm nada a ver com literatura no sentido em que não tornam os livros nem melhores nem piores.
(...)
É um homem sem política e sem religião?

Sou um homem religioso. Cada vez mais. Os grandes físicos do século XX eram homens profundamente crentes; chegaram a Deus através da física, da matemática.
(...)
Estamos numa época em que começa a apetecer revisitar os grandes clássicos?

O que é um clássico? Calvino dizia que clássico é aquele que a gente nunca diz que está a ler, dizemos que estamos a reler.
(...)
E ensinar as pessoas a não terem pressa e que é necessário trabalhar e retrabalhar às vezes é difícil porque há uma sede de reconhecimento. O sucesso é medido pelo número de exemplares vendidos, nem se dão conta...

De que estão na fogueira do mercado?

Mas se pensam na fogueira do mercado, para quê escrever? É preciso sacrificar muitas vezes a tentação, que é humana, não só de frases bonitas mas também de situações que vão prejudicar a eficácia do livro. Muitas vezes tem de deitar-se fora coisas que eventualmente poderão ser boas mas não servem o livro, prejudicam-lhe o galope.
(...)
O escritor deve ser uma voz da consciência?

O seu único compromisso é fazer livros. A importância do escritor é muito relativa. Terá, quando muito, de ser um contrapoder..."

E pronto. Parecendo que não ainda foi uma longa série de frases ;-)

17 de novembro de 2003

O FIM DOS MITOS?
Para os que (como eu) cresceram no meio de histórias sem pés nem cabeça, este endereço pode ser útil.
Só me falta saber se as cobras são mesmo atraídas pelo leite das grávidas. O resto já está esclarecido ;-)
TAVEIRADAS
Da entrevista ao Correio da Manhã, fico a saber que o - por assim dizer - arquitecto T. Taveira, ainda está a trabalhar no projecto de renovação do Estádio da Luz.
Haja uma alma caridosa que vá dizer ao senhor que essa estrutura já foi abaixo.
Se ele não acreditar, gravem um vídeo e mostrem-lhe.
CITAÇÕES
Dos Marretas, não resisto a reproduzir o texto do Animal:
"Já ouviram falar em greves de zelo? Que tal irem TODOS os alunos a TODAS as aulas, fazerem perguntas aos profes, exigirem a bibliografia actualizada, comparecerem EM PESO às aulas práticas... se pretendem fazer o sistema entrar em colapso, não encontram melhor processo. Assim, já era capaz de acreditar na verdade das reivindicações estudantis - a tal exigência de qualidade do ensino."

Caro Animal, de um professor universitário não esperava tanta crueldade! Lol! Mas era irem mesmo a todas? E tirarem apontamentos?
Nem o Sade, se renascesse, teria uma ideia dessas ;-)
RODA DA PAZ
Mesmo para quem não seja dado às coisas menos provadas, os textos da Maria José Costa Felix têm interesse. Remetem-nos para nós próprios e obrigam-nos, de forma serena, a perguntar o que andamos a fazer com a nossa vida. Na "Pública" de ontem, cita Pierre Weil e o seu livro, "Os Mutantes".

"Era uma vez uma onda que, ao perguntar a outra onda onde é que ela ia tão aflita e apressada, ouviu a resposta: Vou por aí, à procura do mar... E logo a primeira atalhou: "Mas tu és o mar!"
(...) Nós somos ondas que se esqueceram de que são o mar. "
SÓ O PUDOR ME IMPEDE de arriscar um poema
GET A LIFE!
Para os que se andam a lamentar das injustiças da vida e do desinteresse do que passa na televisão ou aparece nos jornais, sugeria a reprodução do título deste post e que o colassem à frente do sofá.
PONTUALIDADE

Digam o que disserem, os portugueses estão muito mais pontuais. Por exemplo, a jornalista Maria João Ruela, foi descarregada do avião às 20. 00 h exactas.
Soubemos disto porque, por uma estranha coincidência, era a hora dos telejornais...

16 de novembro de 2003

BACK FROM TOON TOWN :)
139 filmes depois, cá estou, para fazer o balanço. Gosto de ir a festivais de cinema. De andar com uma badge ao pescoço como quem pertence a uma tribo de maluquinhos reunidos numa cidade normal. Durante uma semana ninguém me vê noutros sítios que não sejam a sala de cinema, um ou dois restaurantes, e o átrio do hotel. É um prazer simples e ingénuo. Mas é assim. :) O que também é assim é a overdose com que se regressa a casa. O ponto em que me encontro.
O Cinanima continua a ser O Sítio da animação. O local em que se podem ver filmes atrás de filmes, até percebermos que quando se fala em animação, não estamos obrigatoriamente a cantar louvores à Disney.
Este ano, como a imprensa noticiou, o grande premiado foi o filme australiano "Harvie Krumpet", de Adam Elliot. 23 minutos hilariantes de um homem azarado que anota os "factos da vida". Tão engraçado que só visto (a RTP 2 vai mostrá-lo, um dia destes, juntamente com o "Fast Filme", do imaginativo e hábil Virgil Widrich - de quem já se conhecia um outro filme interessante "Copy Shop" muito premiado).
Nem sei que mais diga, foram tantas as surpresas boas vindas do estrangeiro e tão poucas as banhadas (ao contrário do ano anterior, onde no meio de filmes extraordinários, foram seleccionadas coisas inócuas que GANHARAM PRÉMIOS!!)....
Adorei o filme japonés "Salto em esqui", "O deus" do russo Konstantin Bronzit e o "Tim Tom", produzido pela Supinfocom (uma escola de onde ainda veio uma outra bela surpresa "Crease").
O panorama nacional foi menos animador, já que o número de filmes a concurso era reduzido e sem grande brilho. Contudo, assinalo o prémio atribuido a "Voragem", de Rui Cardoso, cujo argumento do produtor também foi premiado. Foi o trabalho nacional mais sólido, malgré uma certa falta de originalidade... Enfim, outros anos virão para a produção nacional.
O Cinanima continua vivo. "The God" o conserve.

10 de novembro de 2003

DIAS ANIMADOS
Provavelmente não poderei andar por aqui durante os próximos dias. Vou estar em frente ao mar (para variar) no mar de Espinho. É o Cinanima, a festa do cinema de animação. Uma das poucas oportunidades de ver o que de melhor se produziu no ano anterior pelo mundo, além de ciclos, retrospectivas e lançamentos.
Se puderem fazer-se à estrada vão até lá que vale a pena.
See you soon.
O PAÍS DEPRIMIDO
Lol! Pelos comentários vou vendo que anda tudo maldisposto com a semana que aí vem :) E, contudo, por outro lado, são 5 dias inteirinhos até sábado, para mudarmos as coisas de que não gostamos nas nossas vidas, que aí vêm... Venha a coragem da mudança que o resto acompanhará.

9 de novembro de 2003

COME A PAPA, PORTUGAL COME A PAPA...

Gosto da sensatez das mulheres. Os homens são mais frequentemente reservados do que produtores de frases e textos inquestionáveis. Coisas do género: "Se metes os dedos na ficha ficas com o cérebro esturricado". Ditos que são ao mesmo tempo uma tomada de consciência e uma coisa caseira e simples.
A maioria das crónicas da Helena Matos são assim.
Gostei de uma das últimas sobre as escolas privadas e o discurso hipócrita dos governantes e políticos sobre o assunto.Afirma ela que todos juram a pés juntos que a escola pública é um local fantástico para educar os meninos. Contudo... todos eles metem os rebentos em escolas privadas, pagas a peso de ouro. "Que não lhes daria jeito os horários" - a eles, profissionais liberais - mas que ao desgraçado que entra às 9h e sai às 6 h já serviria.
A crónica de ontem, intitulada "Geração Bledine" é igualmente acutilante, se não mais ainda. Vou-me limitar a transcrever alguns excertos:
"É só professores a falar, a falar. Nem uma fotocópia nos dão, nem nada", dizia uma estudante a propósito das propinas. Outras duas, "todinhas" vestidas de cor-de-rosa, óculos de sol a condizer e acessórios vários,peroravam sobre a impossibilidade de pagarem as propinas, cujas, mesmo no seu valor máximo, custam menos do que aquilo que estão disposta a dar para, ao longo de um ano, andarem muito "fashion" em tons cor-de rosa e noutras cores. Os exemplos são inúmeros e, pese o seu lado caricato, deviam levar-nos a questionar o que está por detrás deste "Não pagamos!". Que geração é esta que considera que não deve contribuir nem de forma simbólica para custear os seus estudos?
Esta é a geração "bledine". Aquela a quem tudo chegou devidamente triturado em menus cheios de vitaminas e sais minerais. A geração cuja educação foi organizada sob o terror do trauma.(...) O próprio acto de aprender se transfigurou à luz desta "traumomania": as crianças não aprendem porque ficaram traumatizadas com as más notas. Quantos aos professores, o seu dever não é ensinar mas sim transfigurar galhofeiramente os conteúdos de modo a que os alunos lhes apeteça estudar.(...)
O que ecoa naquele "Não pagamos!" não é um grito de liberdade, mas sim a birra de mimo dos tais omnipotentes infantis de que agora falam os especialistas. De alguém a quem ao nascer se prometeu a vida com um seguro contra as contrariedades..."

Falou e disse.

8 de novembro de 2003

ZOO
A VIDA DE PY veio hoje ter comigo. No nosso Zoo, um chefe de família (existe, existe) indiano alimentava os animais com gáudio, perante o olhar submisso da mulher e espantado do rebento. Muito amendoím comeram os ursos e a macacada em geral.
E havia mais cépticos sobre os avisos "Não alimente os animais". O Leão de Caca vai para uma suburbana que insistia com um macaco à solta (literalmente, já que não havia um único segurança ou tratador à vista, por todo o parque - excepção para as zonas de espectáculos) para que o bicho bebesse leite com chocolate por uma palhinha de plástico....

ps: tirando esta ausência de guardas, a nota não poderia ser mais positiva, o Zoo de Lisboa está muito mais próximo do que de melhor se faz no mundo.
O CORDEIRO DOS TEMPOS
Já me parecia de alto risco a reportagem do Expresso que mostrava a cara descoberta de um menino criado por um casal homossexual. Não porque o tema não fosse da maior pertinência ou deturpasse a verdade, mas porque na sua inconsciência, este adolescente estava a expôr-se completamente à crueldade do meio escolar e de vizinhança.
Quando vi que a Tvi, no seu rasto habitual de sangue e escandaleira, escarrapachou o menor em prime time, só me apeteceu rezar pelos próximos dias deste filho que coloca as coisas nos termos em que elas devem estar: fui criado por duas pessoas que me amaram e cuidaram de mim. A separação recente não virá certamente alterar os sentimentos de nenhum dos 3 face à paternidade.
Pensei nos primeiros alunos negros que frequentaram as escolas onde a segregaçãop era a regra, mesmo se a lei apontava noutra direcção. Nos primeiros meninos contaminados com HIV que há muito poucos anos levavam os pais de outras crianças a virem gritar para as câmaras que não os queriam lá.
Veio-me à cabeça uma outra frase, mais antiga: "Eis o Cordeiro de Deus que tira os pecados do mundo..."
DESCONFIANÇA
Ao que parece, a deputada Odete Santos terá interrompido a sua carreira de actriz para afirmar no parlamento que não lhe parecia bem que se encomendasse uma sondagem sobre o Aborto à Universidade Católica.
Onde é que esta mulher foi buscar tanta desconfiança?... Parece-me tão fiável ser esta instituição a tratar do assunto, como a Associação Nacional de Caçadores ser responsável por uma inquérito sobre a manutenção do abate domingueiro de tudo quanto é bicho. Ou, a um nível mais internacional, a diocese de Boston interrogar-se sobre a eventual existência de predadores sexuais na sua zona...

6 de novembro de 2003

CINANIMA
Começa já na próxima semana e prolonga-se até ao fim-de-semana seguinte, é o Festival de Animação de Espinho.
Como sempre lá estarei para aplaudir as novidades mais interessantes e dormitar nas restantes. O cinema de animação é uma das áreas que mais me interessa no campo da produção audiovisual.
Este ano, helàs, terei responsabilidades acrescidas no que toca à produção nacional, já que faço parte do júri. Farei o meu melhor.
DESCOLORAÇÃO
Julgo que já posso fazer um balanço da minha entrevista ao DN: 98% das pessoas ficaram chocadas com o meu cabelo. 1% leu o que eu disse. Os restantes saltaram directamente para a páginas dos signos.
lol!
NATAÇÃO OBRIGATÓRIA
Há dias em que parece estarmos no mar, apanhados na corrente: queremos chegar à costa e repousar na areia, mas as ondas não nos dão descanso.
(sic)
Dando razão ao Luís Graça, que toma a leitura do jornais como um mal necessário, lá vou até Carnaxide comentar a Imprensa do dia. Um homem regressado de S.Tomé deveria ser poupado a isto, mas enfim, compromisso anteriormente assumido é para ser cumprido.
A vigança vai ser que vou levar os óculos de ver ao perto e ler as notícias pequenininhas. As que falam das coisas boas do mundo
;-)

5 de novembro de 2003

CINEMA PORTUGUÊS
Ao ver no anúncio aos IMORTAIS, "argumento de António Pedro Vasconcelos", percebi melhor o conceito de "ghost writer". Ao ver a capa da Nova Gente, também.
O cinema português continua a dar o seu melhor no que toca o respeito pelas autorias.

4 de novembro de 2003

ACTO DE CONTRIÇÃO
Como já combinei ir amanhã ver o MATRIX, ao Monumental, aqui fica um excerto do livro que ando a ler. Eu sei que isto não me limpa a reputação... mas enfim, é como dar 50 ct a um mendigo: sempre ajuda....

"O caminho da Montanha Fria é risível
Não tem marcas de carros ou cavalos

Torrentes ligadas difíceis meandros
Picos amontoados que se repetem

O orvalho chora sobre mil plantas
O vento murmura sobre iguais pinheiros

Algures perdido o caminho
A forma interroga a sombra: a partir de quê?"

in O VAGABUNDO DO DHARMA, 25 poemas de Han-Shan,
Versão poética de Ana Hatherley
DRAMA LITERÁRIO
Compreendo agora melhor os Existencialistas e a sua mania de escreverem coisas que tendiam a passar-se no mesmo sítio. Se lhes seguisse o exemplo, não estaria agora consumido por perguntas do género: "Como raio seria esta região de Inglaterra no séc. XIX"? Ou, "A que horas se consegue olhar para fora e ver claramente a paisagem da Nova Caledónia"... (suspiro)
A VIDA DE PI
Acabei de ler o livro de Yann Martel. A história de um rapaz e de um tigre num espaço fechado. Um retrato de um percurso de sobrevivência ou até onde alguém pode ir na negação da Moral aprendida.
Não sei se justifica todo o cagaçal feito à volta, mas é claramente um bom livro. E, sobretudo, uma boa ideia. Prolongar durante mais de 300 páginas algo que acontece quase sempre no mesmo espaço, é obra.
A ler.

ps: se sonharem que comem animais crus e sem pele várias vezes, não se preocupem. Em princípio este efeito passa dois dias depois de acabarem de ler. Pelo menos comigo...
AS COISAS OCULTAS
Na Feira do Oculto há uma venda de Lingerie "terapêutica". Ora, parece-me a mim, que qualquer pessoa que já tenha visto mais do que a mãe, a irmã ou primo em cuecas sabe que isto existe. Nem era preciso ir à bruxa.

3 de novembro de 2003

TEMPUS FUGIT

"Já acabei de ler o Harry Potter", diz-me.
"As 700 páginas?!", admiro-me.
"Sim".
"Em 5 dias?"
"Sim".

Meu Deus: mudei as fraldas a um monstro!
RIMBAUD TIME

À LA MUSIQUE

"Sur la place taillée en mesquines pelouses,
Square où tout est correct, les arbres et les fleurs,
Tous les bourgeois poussifs qu'étranglent les chaleurs
Portent, les jeudis soirs, leurs bêtises jalouses ..."

2 de novembro de 2003

4
Peço desculpa por ir reduzir (provavelmente) o meu número de posts. Vou deixar de comprar jornais e de ficar maravilhosamente informado-deprimido, por uns tempos. E tenho um romance à minha espera, não falando dos filhos pequenos que são os contos. E, quando me sobrar tempo disso tudo, vou ter de me sentar a falar com os meus amigos, ou ouvir música e cozinhar coisas suspeitas no meu wok.
Perdoarão que não continue a comentar, regularmente, notícias de corrupção, justiça da risota ou parafilias várias....
Os mais necessitados destes estímulos podem já começar a mudar-se, porque ou me engano muito ou isto vai passar a ter mais poemas que refilanços ;)
3
Ainda o avião não tinha parado e já percebia que estava em África. Na África dos filmes e da imaginação. Na África das ervas altas e das palmeiras. Na África em que as mulheres usam os filhos pequenos amarrados às costas com panos coloridos.
O que eu não sabia é que em África, nesta África, o coração das pessoas ainda estava virgem.
2
Nas salas cheias de alunos africanos recebia sorrisos largos enquanto contava histórias imaginárias que se passavam em mundos tão diferentes como o deserto e o mar aberto.
Em salas cheias de alunos africanos relembrei o que é a curiosidade e o interesse. E também que todos os miúdos jovens escrevem poemas, protestam contra a autoridade e sentem um interesse galopante pelas histórias românticas.
Foi bom falar com gente nova que não olha enfastiada para nós como se dissesse: "dá-me tudo, porque eu tenho direito a tudo". Em África ainda se entende o valor da aprendizagem.
VIM
Tinha razão uma das visitantes ao dizer que ninguém volta igual de S.Tomé.
Volta-se melhor.
Como pessoa.
Em S.Tomé ainda há mãos estendidas e corações abertos. As pessoas vivem com muito pouco. A maioria colhe os frutos das árvores,da terra ou do mar. Pescadores de pé, sobre as pirogas acenam para a terra onde as mulheres alegres como crianças negoceiam o preço do concon (não sei se se escreve assim) ou do peixe-fumo.
Quando andamos pelos buracos em que se converteram as estradas da ilha, só ouvimos uma saudação: "Amigo!".
Em S.tomé percebemos como a Europa e o "mundo civilizado" caminha para o abismo. Em S.Tomé percebemos que uma praia banhada por ondas mansas e ladeada de coqueiros e árvores de fruta-pão é muito mais do que um postal: é um post-it na porta do nosso frigorífico urbano a lembrar-nos o que é essencial e o que é acessório.